ou Da cidade e da rotina
Um lembrete nos arredores do Checkpoint Charlie. (Débora Medeiros)
Descer as escadas de casa de dois em dois degraus, ver o ônibus partindo do outro lado da rua, perceber que o trem faz mais paradas do que a já recalcitrante pontualidade recomendaria, sair quase correndo pela rua de letreiros: tudo para desaguar num salão onde a London Symphony Orchestra afina os instrumentos, para em seguida tecer, junto ao mais novo prodígio do piano chinês, um véu de notas e sensações.
Às vezes esqueço onde estou e a cidade onde moro se reduz aos textos pra ler, o ônibus pra pegar, a casa pra cuidar. Mas, de repente, um dos compromissos anotados na minha agenda se materializa e me traz de volta à (incrível) realidade: estou em Berlim.
Há seis anos, quando percorria os corredores da UFC com aquele misto de curiosidade e orgulho sentido por todo recém-aprovado no vestibular, nem passava pela minha cabeça que estaria vivendo do outro lado do Atlântico pouco mais de um ano depois de formada. Quando estive aqui pela primeira vez, caminhei por ruas que pareciam ter visto cada linha dos meus livros de História: placas - como a fotografada por mim acima - demarcando onde o Muro se erguia, museus cheios de relatos de um cotidiano surreal, pessoas que haviam crescido entre as ruínas do Pós-Guerra, prédios residenciais quase em cima do fatídico bunker de Hitler (que hoje não existe mais, foi aniquilado pelos soviéticos pra não virar local de peregrinação pra malucos). Mesmo assim, Berlim não me pareceu uma cidade parada no tempo. O Tachelles fervilhava com doidões do mundo inteiro, a comunistona Alexander Platz tinha virado shopping a céu aberto e as pessoas corriam pra vida, cheias de afazeres espalhados entre as conexões de ônibus/trem de superfície/metrô.
Hoje sou uma dessas pessoas e me pergunto se elas, como eu, esquecem onde estão, habitando as tarefas diárias ao invés da própria cidade. Berlim, nesse ponto, me parece o oposto de Paris, que é um lugar onde, sob a beleza dos pontos turísticos, se escondem milhares de vidas sacrificadas pelo sonho de simplesmente estar lá: pedintes no metrô, imigrantes tiritando de frio ou torrando ao sol, se fazendo de estátua para ganhar alguns trocados de quem se fotografa ao lado deles, transeuntes que parecem carregar uma couraça sob os casacos bem cortados, prontos para dar uma resposta cortante ao menor movimento brusco - algo que conviver com a hostilidade repentina faz com a gente. Paris só deve ser suportável para essas pessoas porque elas estão constantemente se lembrando do nome do chão onde pisam.
Não, Berlim me parece uma cidade mais possível - menos de fachada. Tem desempregados, especulação imobiliária, criminalidade, orçamento estourado, obras faraônicas. Mas também tem um custo de vida baixo, uma contracultura viva e militante, recantos onde estranhos se ajudam das mais diversas formas sem pedir nada em troca. As pessoas dão um jeito de não cair no caos, desde os estudantes que fazem bicos de garçom ou de professor particular aos mendigos que vendem jornais comunitários no metrô. Todos devem se esquecer às vezes que estão em Berlim.
E, de certa forma, é essa a beleza da cidade: ela vai se infiltrando na vida da gente, de uma maneira própria de cada um, por memórias, lugares e pessoas que não estão nos cartões postais.







