Die Toten Hosen: cada vez mais estilosos

Uma das bandas mais tradicionais do punk rock alemão, o Die Toten Hosen sabe bem o que é o diálogo com os mais diversos gêneros musicais, fazendo de sua obra uma bagunça de sonoridades e idiomas, o que nem sempre é bem recebido pelos puristas. In aller Stille é uma síntese equilibrada das experimentações que a banda vem realizando desde seu primeiro álbum, Opel-Gang, de 1983.

Em breve, um pouco da trajetória do Die Toten Hosen em nosso podcast.

Nem o punk rock, com sua rude simplicidade, deixa de interagir com outros gêneros musicais, como mostrou o The Clash e suas experimentações com o reggae, já nos anos 1970. E por que deveria? Coitado do músico que é bitolado a ponto de não ver além dos acordes que toca! A trajetória do Die Toten Hosen é uma prova de que às vezes dá certo, às vezes não, mas é preciso arriscar. O álbum recém-lançado In aller Stille deu muito certo e valeu a aposta: cada uma de suas treze faixas demonstra o amadurecimento de uma banda que flerta sem medo com o novo e o inusitado.

O CD começa com Strom, um punk rock bem produzido e enérgico – talvez, por isso, tenha encabeçado também o primeiro single lan
çado para divulgar esse novo trabalho. A música seguinte é Innen alles neu, outro punk rock básico, que, não fossem os avanços óbvios na qualidade de gravação, se encaixaria com facilidade em algum dos álbuns da banda nos anos 1980. Depois dela, vem Disco, com batidas eletrônicas e samples típicos da disco music, que fazem a gente se sentir em uma festa que promete muitas surpresas.

Coincidência ou não, é a partir daí que o álbum realmente parece que vai engrenar, já que, logo a seguir, vem Teil von mir, uma das músicas que mais trazem o clima sombrio e pesado que o Die Toten Hosen vem incorporando às suas composições nos anos 2000, na linha de Ich bin die Sehnsucht in dir, do álbum anterior, Zurück zum Glück (2004). Porém, tudo volta a ficar mais brando com Auflösen, dueto em que o vocalista Campino e a atriz Birgit Minichmayr cantam quase em clima acústico, acompanhados por instrumentos como um piano, um violão e um violoncelo.

O que se segue é um revezamento entre composições mais ágeis e baladas: Leben ist tödlich é outra música talhada nos moldes do Die Toten Hosen mais punk, com um refrão marcante e desafiador (em tradução livre: Olhe pra si mesmo/Você gostaria de ser imortal?/Graças a Deus/que a vida é mortífera!), enquanto Ertrinken, a balada seguinte, soa um pouco comercial e tem nuances que lembram o U2. Alles was war virou uma das minhas músicas favoritas. É um hard rock genuíno na melodia e até na temática: o reencontro de um amor antigo, tratado aqui com melancolia e bom-humor - quem sabe isso não reconquista a moça? Acelerando novamente, vem o rock Pessimist. E aí, é hora de mais uma balada, Wir bleiben stumm, uma das músicas mais sem graça do álbum, com melodia pouco inovadora.

O tédio é compensado por uma surpresa em Die Letzte Sclacht: quem diria que o Die Toten Hosen sentiria a influência do punk rock dos anos 1990? A música é a cara do Green Day, com uma batida mais frenética e um vocal levemente cínico. Repetindo a seqüência de poucas faixas antes, Tauschen gegen dich, a canção seguinte, é quase outra Wir bleiben stumm, só que com uma letra ainda mais melancólica e uma melodia mais interessante. Encerrando o álbum, Angst vem cheia de suspense, narrando as reações corporais ao medo, com uma batida mais pesada e os vocais de Campino em sua forma mais grave.

Em alemão, “in aller Stille” tanto pode ter o sentido literal de “em todos os estilos” como pode ser usado para dizer que algo foi feito “em grande estilo”. Qualquer um dos dois significados se aplica a esse álbum, que mostra o Die Toten Hosen em muito boa forma, passeando por uma gama de sonoridades. Na minha opinião, é um ótimo CD, com músicas que já têm cara de clássicos à primeira audição. Só poderia ter menos baladas. A banda nunca precisou suavizar suas arestas para conquistar novos fãs. Aliás, pra quem gosta do som dos alemães, as arestas são o que eles têm de melhor.

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Mais uma casa



Há alguns dias, o Daniel Sonnora me chamou pra colaborar com o blog dele, a Revista Digital Alternativa, que tem um conteúdo bastante diverso e atualizado. Obviamente, fiquei muito feliz com o convite :) Estamos pensando em um esquema de colaboração que fortaleça tanto o Música Expressa quanto o Alternativa, com podcasts, colunas periódicas e muitas outras novidades. Aqui vai o post de apresentação que escrevi pra lá. Achei uma boa idéia colocar aqui também, pra quem ainda não me conhece.

Você também pode ler o texto direto no Alternativa e, se ainda não acompanha o blog, aproveitar pra começar.


"Olá, meu nome é Débora....

...e faz muitos anos que sou viciada em música ;p

Bom, brincadeiras à parte, estou postando só pra dizer que é uma honra ter sido convidada pelo Daniel pra colaborar com o Alternativa, um dos melhores blogs sobre música que encontrei passeando pela web. Espero poder ajudar o site a crescer cada vez mais e tenho certeza de que vou aprender muito aqui :)

Um pouco sobre mim: tenho 20 anos e moro em Fortaleza (CE), onde estudo Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, na Universidade Federal do Ceará (UFC). Estagiei por cerca de um ano e meio na nossa Rádio Universitária, onde descobri minha paixão por essa mídia tão tradicional porém sempre inovadora, além de ter entrado em contato com muitos dos artistas que movimentam a cena local. Depois, passei por uma assessoria de imprensa e trabalhei com educomunicação na ONG Comunicação & Cultura. Atualmente, estagio no núcleo de cultura do jornal O POVO.


De uma forma ou de outra, a música sempre esteve presente na minha vida. Desde pequena, escutava a Rádio Universitária com meus pais e pegava emprestados os discos deles, descobrindo alguns artistas favoritos que tínhamos em comum. Depois, peguei os primeiros tempos dos peer2peers e lotei meu pc de vírus, mas valeu a pena pra conhecer coisas novas, hehe! Foi assim que se formou meu gosto musical: misturando influências familiares e descobertas feitas com um clique. Hoje, posso dizer que sou um pouquinho chata pra gostar logo de cara do que toca nas rádios comerciais, mas, fora isso, curto de (quase) tudo: música erudita, techno, heavy metal, MPB, jazz, blues, música pop e as várias vertentes do rock.


Demorei um pouquinho pra unir essas duas paixões tão presentes na minha vida: o jornalismo e a música. Foi só depois de três anos na graduação que percebi que essa talvez fosse uma boa idéia. Pra ser mais exata, isso aconteceu quando, junto com minha amiga Lucíola Limaverde, entrevistei o tecladista do Nightwish, Tuomas Holopainen. Foi uma aventura e tanto (quem quiser pode ler a entrevista e nossos relatos no blog do jornal do curso, o Jabá) e a felicidade de ter conseguido falar com o cara me fez ver que seria uma boa continuar a fazer isso profissionalmente. Acabei fazendo outras boas entrevistas depois. Algumas delas podem ser encontradas no Whiplash, site especializado em rock e heavy metal. Outras estão esperando pra ser publicadas no meu blog, o Música Expressa.

Enfim, é isso! Hora de começar a postar :)
"

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Edu Falaschi comenta o peso do Nordeste na cena metal brasileira



por Débora Medeiros e Lucíola Limaverde

foto de Raúl "MisfitKid"

Logo após a apresentação do Almah em Fortaleza (5/12/2008), Edu Falaschi, em entrevista exclusiva, relembra sua trajetória, descreve o processo de composição e ressalta a importância da união para a cena Heavy Metal no Brasil, que, segundo ele, está muito mais forte no Nordeste que em seu pólo habitual, o Sudeste.

Entrevista publicada também no Whiplash.

Você começou a tocar aos 14 anos, era de uma família que tinha músicos, mas não gostava de cantar. Em que momento você descobriu que queria ser vocalista?
Eu tocava numa banda cover e a banda tinha um outro vocalista, eu tocava guitarra e fazia backing vocal. O guitarrista saiu da banda e eles falaram: "Ah, canta nos ensaios, a gente não tem cantor por enquanto". Eu tive que cantar, e eles: "Caramba, você canta legal! Vamos fazer o seguinte, você pára de tocar guitarra, só canta, e a gente chama outro guitarrista". Comecei a cantar, e foi assim que eu me descobri vocalista.

E você não cantava antes por quê? Tinha vergonha, achava que não sabia?
Não, eu ainda não tinha descoberto, sabe? Eu achava legal cantar, mas não era uma coisa que me atraía. Achava legal, mas preferia tocar. Depois comecei a me apaixonar.

Você entrou no Mitrium em 1990, e, em 1994, você deixou a banda para fazer a faculdade de Propaganda. Como foi essa decisão de priorizar os estudos em detrimento da música?
É aquela coisa, você é adolescente, tem a pressão de todo mundo para você estudar. A música é um mercado complicado mesmo, principalmente o Heavy Metal aqui no Brasil, e toda a minha família dizia: "Não, tem que estudar". E aí eu fui estudar, fui fazer Propaganda e Marketing, que era o que eu curtia além da música, achava interessante. Eu terminei a faculdade, mas na verdade nunca trabalhei com isso. Acabei fazendo sempre música, a música está na minha vida desde os meus 12 anos.

Mas você se vê exercendo Propaganda?
Não, não! Foi bom para me ajudar no "marketing" pessoal, mas trabalhar em agência não, não tem nada a ver comigo.

Seu primeiro contato profissional com a banda Symbols foi como produtor, e quem fazia os vocais era o Tito Falaschi, seu irmão. Como foi essa influência familiar na formação musical?
Na verdade, eu que influenciei meu irmão, porque eu sou o mais velho e eu sempre ia ensinando, tendo uma influência mesmo. Ele me chamou para produzir o disco por eu ter uma facilidade de arranjo, por tocar vários instrumentos, por ter uma facilidade de composição. Meu irmão falou: "Ah, vem produzir nossa banda, a gente precisa de uma ajuda". Eu fui produzir, no final das contas ele falou: "Canta uma música", eu cantei, "canta duas músicas", eu cantei... Aí pintou uma idéia: "Por que a gente não faz uma banda juntos, já que você está sem banda? A gente divide os vocais, fica diferente". Falei: "Tá bom". E assim eu entrei na banda.

A saída do Symbols se deu quando você foi chamado para o Angra, e vocês estavam se preparando para gravar o terceiro álbum do Symbols. Como foi essa transição, sair de uma banda que estava gravando um álbum e ter de gravar pelo Angra no mesmo ano?
É, foi um pouco turbulento, porque o pessoal do Symbols ficou meio chateado. Mas na verdade o Symbols já estava bastante dividido, porque meu irmão (Tito) já tinha saído, o (Rodrigo) Arjonas, que era o outro guitarrista também já tinha saído – ele era guitarrista junto com o Demian (Tiguez) –, o tecladista já tinha saído, então ficou eu, o "batera" e o Demian. A gente já estava um pouquinho enfraquecido, quando pintou o convite do Angra foi irrecusável. E eu até eu falei para o pessoal do Symbols: "Vamos continuar, eu vou fazer o Angra primeiro, quando der tempo a gente faz o Symbols de novo". E eles não quiseram: "Não, não quero, a gente vai ficar em segundo plano, a gente não quer..." Eles tiveram a escolha deles, o Demian começou a cantar... E foi uma pena, seria legal se tivéssemos gravado mais um álbum com o Symbols. Mas eu acredito muito que as coisas acontecem quando têm que acontecer.

Você já era compositor nessa época. E quando você entrou no Angra, uma banda de renome, que já tinha uma história, você teve músicas suas gravadas logo no primeiro álbum. Qual a sensação de compor para uma banda que já fazia sucesso, que tinha seu público?
Foi muito legal ver o reconhecimento do Kiko (Loureiro) e do Rafael (Bittencourt) pelo meu trabalho, eles me darem essa oportunidade e essa liberdade: a primeira música do álbum ser uma música minha, já. Foi bom, eu fiquei feliz, fiquei lisonjeado de ouvir deles: "Puxa, suas músicas são muito boas, a gente vai ter que usar, a gente já estava com o disco praticamente pronto", eles me falaram, "mas "Nova Era" não dá para deixar de lado, o "Heroes of Sand" não dá para deixar de lado, a gente vai ter que usar". Eu comecei no Angra com essas duas músicas, a partir daí meu espaço sempre foi aumentando cada vez mais. E, coincidentemente, todas as primeiras músicas de todos os discos do Angra comigo são minhas, minhas com parceria de outros compositores, ou o Kiko ou o Rafael – mais com o Kiko, na verdade. Tem essas músicas, "Nova Era", a primeira do "Rebirth", "Spread of Fire", a primeira do "Temple of Shadows" e "The Course of Nature", que é a primeira do "Aurora Consurgens". Então, engraçado, nos três discos, as primeiras músicas foram minhas, entre outras músicas que eu compus para o Angra também.


E como é esse processo? Vocês vivem nessa correria de shows, você já chegou a fazer com o Angra quase cem shows em um ano... Quando você compõe?
Eu componho geralmente fora da turnê, quando está num período parado. Passo um tempo em casa ou vou para a minha casa de praia, fico lá, só com a família, tranqüilo, e começo a compor mais. Mas às vezes acontece de eu estar aqui, por exemplo, com você falando, aí acaba a entrevista, eu vou lá no camarim, pego um violão e de repente tenho uma idéia, então eu guardo as idéias para depois e desenvolvo.

E como acontecem as parcerias com o Kiko e o Rafael?
É tudo bem natural. Eu mostro as músicas para o Kiko, para o Rafa, eles ouvem a música. Se eles se interessam, falam que a música realmente tem potencial, assim como eles também me mostram as deles e eu também falo, dou minha opinião, se realmente é legal, se de repente ficou bom, "não vamos fazer essa, vamos fazer a outra". Também tem essa liberdade, a gente conversa. E, a partir daí, que foi aceita a música, a gente começa a trabalhar juntos. Então, geralmente eu venho com a música pronta assim: introdução, a parte da voz principal, o verso, a ponte e o refrão. E geralmente eu tenho um pouco mais de dificuldade de compor a parte instrumental, até porque eu não sou o instrumentista da banda. Apesar de tocar vários instrumentos, não tem nem como discutir o Kiko tocando guitarra e eu, né? Então às vezes eu venho com uma idéia inicial: "Pô, Kiko, tem um negócio na guitarra que eu gostaria que fosse assim", aí eu canto para ele. E ele: "Ah, nessa parte eu tenho essa idéia", ele mostra, a gente junta as idéias e vai trabalhando.

Há algum tempo, uma carta cuja autoria foi atribuída a você foi divulgada na Internet, falando das polêmicas que havia no começo da banda, as comparações com o André Matos e de algumas calúnias à sua pessoa. A carta é verdadeira?
Qual carta que é essa?

Foi postada no Orkut, já faz um tempo. Você fala que tinham espalhado um DVD numa fase em que você estava ruim da garganta...
Ah, tá! Essa fui eu mesmo. Se é a que eu estou pensando, sim. (risos)

E como foi esse período?
Foi um período ruim, porque foi um tempo em que eu fiquei bastante doente, e muitas pessoas ruins se aproveitaram disso. Depois, com o tempo, eu fui aprendendo que não adianta: tem pessoas ruins em todos os meios e, com a Internet, elas extravasam a sua ruindade. Eu sou um cara muito sensível, e acabei ficando magoado na época. Mas aí eu falei: "Cara, não adianta. Estou triste e tal, mas só tem uma coisa a fazer, que é melhorar e voltar a cantar bem". Porque eu realmente estava cantando muito mal. E as pessoas achavam que eu estava tranqüilo, feliz? Não, eu estava triste, tava mal pra caralho. Eu falei: "Meu, como é que eu vou cantar assim? Não dá pra continuar cantando assim. Eu não sou isso". Eu comecei a estudar, fui fazer um monte de tratamento e, graças a Deus, deu tudo certo e eu fiquei bom de novo.

Edu, nessa sua trajetória musical, você já dava aulas de canto desde 1999 e, atualmente, você sempre tira um tempo para dar workshops. Como é sua relação de ensinar a música, de passar a música para outras pessoas?
Ah, eu acho importante, até pelo incentivo ao músico novo, mostrar que ele tem que correr atrás dos sonhos dele, mas sempre embasado nas técnicas, numa educação legal, para o cara não se prejudicar no futuro. O que não impede totalmente: mesmo tendo técnica, você pode se prejudicar, como foi o meu caso. E o caso de outros cantores, como Elton John, como o próprio Pavarotti, Freddie Mercury (Queen), entre outros cantores que tiveram problemas nas cordas vocais. Vários, tem uma lista de duzentos, se eu ficar aqui falando... David Coverdale (ex-Deep Purple, Whitesnake)... E todos eles são grandes cantores: Bruce Dickinson (ex-Samson, Iron Maiden), o próprio James LaBrie do Dream Theater, Michael Kiske (ex-Helloween) também teve... Então, a maioria dos cantores já teve algum tipo de problema. Mesmo tendo bastante técnica, isso acontece. Mas você tem que ter paciência, as cordas vocais são bem delicadas.

E sempre acontece que, quando o Angra está parado, você dá esses workshops, faz participações especiais... Nesse contexto, de que modo o Almah nasceu como projeto paralelo? Quando você percebeu que era hora de ter um projeto?
Ah, eu percebi na hora que o Angra resolveu parar, em julho de 2007. Eu falei: "Tá, e aí, o que é que eu vou fazer? Vou ficar em casa?" Eu tinha o Almah já criado, muita gente já sabia do projeto. Então eu decidi transformar numa banda, porque é mais fácil trabalhar. Eu acredito mais nas pessoas trabalhando juntas, todo mundo feliz, todo mundo dando idéias, do que só eu e eu: "Ó, galera, eu vou dominar tudo, eu vou fazer tudo, e é isso". Eu até poderia fazer isso, mas acho que o resultado final é muito melhor em grupo. A prova disso é o "Fragile Equality": na minha opinião, eu acho que é um puta disco, muito legal. E eu tenho certeza que, sem esses caras aí, se dedicando como membros da banda, esse disco não teria saído nem a metade do que saiu.

No primeiro disco, você chamou muitos músicos estrangeiros: o Emppu (Vuorinen, Nightwish), o Lauri (Porra, Stratovarius), toda a equipe. E você disse à Roadie Crew que era uma questão mesmo de testar como era trabalhar com pessoas de outras culturas...
É, eu nunca tinha gravado com estrangeiros, e eu fiquei feliz de ter tido isso, de ter essa oportunidade.

E como essa questão das culturas diferenciadas influenciou na composição?
Primeiro de tudo, eu quis chamar amigos. Não queria chamar músicos conhecidos só porque os caras são conhecidos, pagar e eles não terem nenhum tipo de envolvimento. Então, eu chamei amigos que tocavam comigo já nas turnês que o Angra fez... O Emppu, do Nightwish, é um amigo mesmo, um grande amigo. A gente sai bastante junto, ele já veio ao Brasil sem a galera saber. Agora, com o Nightwish (que veio ao País com a turnê "Brazilian Passion Play"), ele esteve lá em São Paulo eu saí com ele, a gente foi dar um "rolé". É um cara muito querido. Aí (na época em que estava montando a equipe do Almah), ele falou: "Pô, o Lauri mora aqui na Finlândia também", do Stratovarius, "vamos fazer com ele?" E eu falei: "Claro! Conheço o Lauri também". Por último eu chamei o Casey Grillo, um amigo meu também, do Kamelot. E deu tudo certo. Foi perfeito porque eu tive três caras maravilhosos no meu disco, além de outros grandes convidados também.

Durante o show (em Fortaleza), você falou sobre o Nordeste ser um lugar interessante para tocar. Como é sua percepção da cena daqui, do Nordeste em relação ao Brasil?
O Nordeste, hoje em dia, eu acho é o lugar mais forte no Heavy Metal. Está longe, inclusive, de São Paulo, que sempre foi o pólo principal. Eu acho que a cena Heavy Metal caiu bastante nos últimos três anos, mas o Nordeste ainda se mantém firme e forte.

A que você atribui essa queda?
Acho que a parada do Angra foi de grande importância, o Sepultura também teve alguns problemas, o fim do Shaman e o re-recomeço deles – do Confessori, na verdade –, tudo isso. Eu acho que as bandas deviam cada vez existir mais e ficar mais fortes. As pessoas lutam para as bandas ficarem cada vez mais fracas e acabarem, e brigarem, e não sei o quê. Aí não ficou banda nenhuma, pintou o Hangar, o André Matos solo e o Almah, dentre outras que já eram conhecidas: o Dr. Sin, o Korzus. O Torture Squad está aparecendo, mas tudo se segmentou muito – de uma banda apareceram três, quatro, cinco... Do Angra apareceu Shaman e o Angra novo, Shaman novo, André Matos, Hangar, Almah... Ficou muito segmentado, perdeu força. Se as bandas tivessem se unido, talvez não, talvez estivesse bacana, mas as bandas não se unem, né? E aí foi cada um para um lado, cada um falando besteira um do outro nas entrevistas. Eu acho que isso foi um grande motivo para enfraquecer a cena.

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Wayfarer, heartlander: as andanças de Tuomas Holopainen

O Tuomas Holopainen, tecladista do Nightwish, concedeu esta entrevista a mim e à jornalista Lucíola Limaverde quando a banda esteve em Fortaleza. Sem exageros, foi uma das vivências mais enriquecedoras que tive, tanto pela conexão que toda entrevista com certa profundidade proporciona quanto pelos instantes que a antecederam. Depois dela, decidi que queria me dedicar à cobertura jornalística da música e, principalmente, do heavy metal.

O material saiu no Jornal Jabá, publicação estudantil do curso, e no Whiplash.
Para saber um pouco mais sobre os bastidores da entrevista, recomendo ler o meu relato e o da Lucíola.

Vocês fazem turnês desde o primeiro CD
[Angels Fall First, lançado em 1997]. De que forma as turnês evoluíram, daquela época até agora?
As turnês se tornaram profissionais demais, por assim dizer, porque nosso sucesso cresceu e nós passamos por mais lugares, tocamos em lugares maiores. Então, por exemplo, no começo, nós tocávamos em bares pequenos, lugares desse tipo, havia um sentimento intimista. E sabe, nós mesmos montávamos o nosso equipamento. Agora, durante os últimos anos, nós temos muitos técnicos cuidando de todo mundo, eu não sei mais nem montar o meu teclado. Então, a turnê se tornou bem maior, por assim dizer, e também mais profissional.

Isso é bom, ruim...? Você sente falta dessa época?
Eu sinto, na verdade, porque naquela época tudo era novidade, sabe, vir pela primeira vez para o Brasil... Eu ainda acho que aquela ("Wishmaster World Tour", em 2000) talvez tenha sido a turnê mais memorável que nós tivemos e nós estivemos aqui quatro vezes depois disso, já sabemos meio o que esperar. O choque positivo inicial se foi. Então, eu sinto um pouco de saudades daqueles dias, sim.

Sobre este álbum, você disse que ele contém a música mais pesada da história do Nightwish, Master Passion Greed. E no próximo, haverá outras músicas bem pesadas também?
Eu não tenho idéia, na verdade (risos).

Você tem cerca de quantas músicas prontas? Umas quatro...
Cerca de duas.

As letras e as melodias?
As melodias e as idéias, mas é realmente impossível dizer como o próximo álbum vai soar. Eu tenho muitas idéias, mas ainda resta vê-las.


Você tem idéia de quando o próximo álbum deve sair?
Não antes de 2010, isso é certo.


Em que momento você escreve melhor suas músicas? Como você compõe?
Não preciso de um momento ou lugar específicos, na verdade, pode acontecer em qualquer lugar. Mas, em alguns aspectos, seria pela manhã, esse deve ser o melhor momento para eu compôr: de manhã cedo, quando eu acordo. No inverno é sempre melhor que no verão e em casa é sempre melhor que em qualquer outro lugar, como, por exemplo, nas turnês.

Seu lar, seu país, seria o melhor lugar para compôr?
Sim, eu realmente acho que sim, porque cada uma das músicas do Nightwish que eu escrevi foi composta mais ou menos em casa.


Você se inspira muito na Finlândia?
Sim. Na neve, na natureza, no povo, em tudo. É o meu lar, o lar é muito inspirador para todos nós.


E qual a diferença entre o público finlandês e o do resto do mundo?
Não tem muita diferença, na verdade, porque quando se trata dos fãs desse tipo de música, eles são bem parecidos no mundo todo, de certo modo. Vocês apenas mostram isso melhor. Na Finlândia, não tem gente assim, vindo te ver no hotel
[refere-se aos fãs que aguardavam a banda na calçada do hotel]. Eles ainda gostam de você, só que são mais reservados. E isso tem a ver com a mentalidade do povo: nós somos um pouco mais calmos, introspectivos, sem mostrar nossas emoções.

Quais são seus planos para quando a turnê acabar?

Vamos tirar uns dois meses de férias, quando iremos a algum lugar totalmente afastado. E, depois disso, começar a escrever as músicas e, talvez, por volta do começo de 2010, vamos para os ensaios e depois entramos no estúdio e começamos a trabalhar no próximo álbum. A idéia é essa, mas a vida é muito estranha, você nunca sabe o que vai acontecer, pra onde você vai... O mais seguro é não pensar demais nisso, só fazer alguns planos e ver o que acontece.




ALGUMAS HORAS depois da entrevista, assistimos a uma ótima apresentação
da banda, que resenhei para o Whiplash.

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Discussões que repercutem

Sabe aquela conversa boa que deixa a gente com uma coceirinha no cérebro, pensando em ramificações pro que foi dito? Pois foi com essa sensação que saí do Centro Cultural Banco do Nordeste nesses dois primeiros dias de Seminário Nacional Experiências Musicais. Em meio a panoramas nos quais se cruzaram o hip hop, o manguebit, Massafeira, MPB cearense e Chico Buarque, dois tópicos, em particular, cutucaram o público e os debatedores: o papel da Internet no cenário musical e a relação entre os rótulos e a indústria fonográfica.

Todo mundo fala que a Internet é o quente da música hoje, com potencial pra inverter a velha relação artistas-correndo-atrás-de-gravadoras, mas o que acontece quando alguém discorda? Enquanto
Jacques Luis Casagrande, Francisco Gerardo Cavalcante do Nascimento e Francisco José Gomes Damasceno, os integrantes daquela primeira mesa, ressaltavam a facilidade de divulgação e contato com o público que a Web proporcionava, algumas objeções eram levantadas. Nem todo mundo tem acesso à Internet, diziam alguns; no meu tempo, as coisas boas estavam na TV, não num endereço específico, lamentavam outros. Por mais que tenham soado bobos na hora, esses contrapontos me fizeram pensar sobre como a Internet ainda é uma ferramenta inexplorada.

Virando dinossauro

Pertenço a uma geração que sedimentou seus gostos musicais na Internet, trocando arquivos em MP3, caçando vídeo-clips antes de o Youtube aparecer, freqüentando sites de fã-clubes em uma era pré-orkut... Engraçado pensar que a realidade na Web mudou tanto em tão poucos anos. Hoje, é difícil imaginar uma banda que não use esses sites como vitrine, não importa o quão pequena ou recente ela seja (por sinal, as grandes e as antigas também aderiram). Além disso, surgiram sites específicos para divulgação musical, como o MySpace e o Trama Virtual.

Até bem pouco tempo atrás, o caminho para o mainstream pressupunha bajular as gravadoras com CDs-demo paridos em estúdios a preços pouco módicos, pagar um bom jabá pras rádios e TVs e mimar a crítica especializada. Tudo isso ainda existe, mas, com a Internet, pipocam bandas que conseguiram chegar ao público de formas bem mais, digamos, baratas. Penso bastante no pessoal do indie, sendo o exemplo mais famoso a Mallu Magalhães, mas, antes dela, já havia o Cansei de Ser Sexy e o Bonde do Rolê pra contar a história.

Foi mais ou menos isso que argumentei na hora, mas depois fiquei matutando: tudo bem que, em suas origens britânicas, ser indie já pressupunha essa jornada alternativa até o sucesso, ditando as regras para as gravadoras (ou dando a impressão de), com o respaldo de um público cativo de antemão. Mas por que não consigo pensar em bons exemplos de uso da Internet em outros gêneros musicais, como a MPB? Parece que o ideal ainda é tocar em trilha de novela, apesar de haver outras vias bem mais dignas rumo ao sucesso... Talvez por isso os artistas da nova MPB que tocam nas rádios soem tão iguais. Ou talvez seja só preconceito da minha parte. Mas, sério, alguém conhece algum artista da MPB que estourou primeiro na Internet?

Rótulos

Um ponto de convergência entre as falas de Wagner Castro, Lia Mirela Moita e Mary Pimentel: o uso de rótulos para vender artistas, quer eles abracem as etiquetas ou não. Enquanto Lia falava de Chico Buarque e a relutância demonstrada por ele em aceitar a bandeira de músico de protesto, Wagner Castro lembrou a onipresença do subtítulo "Pessoal do Ceará", que acompanha toda uma geração de músicos e compositores cearenses e, na avaliação do pesquisador, parece subentender que, depois de Rodger, Fagner, Belchior e companhia, "não apareceu mais ninguém".

Como já contei por aqui, o pessoal do Ceará virou Pessoal graças à Continental, que lançou o LP Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem com ese subtítulo em 1973. Como o disco foi bem recebido e fez história, continuou sendo um bom negócio incluir mais e mais artistas, de gerações e movimentos distintos, na mesma leva.

Com Chico, o mistério persiste: como a censura dificultava a venda de discos do cantor, não dá pra ter certeza que foi a indústria fonográfica que o rotulou como um músico de protesto. Mas quem teria sido o autor da idéia, então? Mergulhando no contexto da época, surgem outras possibilidades: teria sido o público? Alguns setores da esquerda à época? A sociedade, esperando impaciente pela redemocratização? O que se sabe é que Chico se mostrou descontente com o rótulo diversas vezes.

Inventar vertentes musicais e movimentos está na moda até hoje, há bandas que o fazem por conta própria, na tentativa de se sobressair da multidão. Há outras que buscam se destacar justamente repelindo os moldes. Qual dos dois é o caminho mais sensato, se é que ele existe?

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Uma tessitura de perspectivas musicais

Começa hoje, no Centro Cultural Banco do Nordeste, o Seminário Nacional Experiências Musicais, promovido pela Associação Cultural Cearense de Rock (ACR), a mesma que toca projetos como o ABC Digital e o Forcaos, festival que conta com a presença de bandas locais e nacionais e acontece em Fortaleza e na Região Metropolitana. Como não poderia deixar de ser, estarei lá para cobrir o evento e, em breve, postarei novidades :)

O seminário vai reunir acadêmicos, músicos, jornalistas e críticos especializados para discutir música, através dos diversos vieses que a permeiam: antropológico, social, artístico, mercadológico, contra-cultural. Enfim, é um prato cheio para quem gosta de música e quer se aprofundar no assunto, além de conhecer novas bandas, já que cada dia terminará com a apresentação de um grupo diferente.

Confira a programação:

Dia 09, terça, 15h
Manifestações Estéticas Juvenis I
Francisco Gerardo Cavalcante do Nascimento - A Estética MangueBit: Uma Mutação na Indústria C ultural Brasileira da Década de 1990
Jacques Luis Casagrande - A Arte Como Possibilidade Emancipatória na Sociedade da Indústria Cultural
Francisco José Gomes Damasceno - Memória e Estética Juvenil
Apresentação Musical: Tambor da Terra (18h)

Dia 10, quarta, 15h
Músicas e Tessitura Social da Musicalidade
Mary Pimentel - Quando os "Pessoais" se Encontram: Notas Sobre a Música Popular Cearense
Lia Mirela Moita - "A Gente quer ter Voz Ativa e no Nosso Destino Mandar, mas eis que Chega Roda Viva e Carrega o Destino pra Lá": Chico Buarque, Indústria Cultural e Público Consumidor
Wagner Castro - Massafeira Livre - O Mormaço da "Massa" Agitou a "Feira" e os Artistas
Apresentação Musical: Os Transacionais (18h)

Dia 11, quinta, 15h
Mediações e Musicalidades
Roberto Marques - Espacialidades Descritas Sob os Holofotes do Forró Eletrônico
Monalisa D ias de Siqueira - Os Gato Véi e o Estilo de Vida Forrozeiro em Fortaleza
Márcio Mattos - Os Grupos de Forró: dos Trios às Bandas
Apresentação musical: Fulô de Araçá (18h)

Dia 12, sexta
1ª momento - Manifestações Estéticas Juvenis II (10h)
Abda Medeiros - Dinâmicas de Significados no Underground em Fortaleza
Pedro Alvim (RJ): Hell de Janeiro: Heavy Metal e Choques Culturais na Cidade do Rio
2ª momento - Rock e Mediações Culturais (14h)
Lucas Gurgel - "Nietzsche e o Rock: Por uma Genealogia da Desmesura"
Márcio Benevides - Aspectos Estéticos e Socioculturais do Fazer Rock em Fortaleza-CE: Autoral ou Original?
Apresentação Musical: Obskure (18h)

Dia 13, sábado
Divulgação e Distribuição: Outras Experiências (10h)
Amaudson Ximenes - Um Ensaio Sobre a Influência do Cotidiano na Formação Curricular
Ricardo B atalha (SP) - Divulgação Musical em Revista: Roadie Crew
Música e Ciências: Outras Experiências (14h)
Francisco Damasceno - Experiência Musical: Aproximações Conceituais
José Geraldo Vinci Moraes (SP) - "Samba tem Cadência. Digo a Verdade. E até já Chegou na Universidade".
Apresentação Musical: Clamus e Lançamento de Livro do Seminário (18h)

Serviço:
Seminário Nacional Experiências Musicais
de 9 a 13 de dezembro
Centro Cultural Banco do Nordeste
Rua Floriano Peixoto, 941, Centro
Inscrições gratuitas

Mais informações no blog do evento ou pelo telefone 3464.3108.

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Pessoal do Ceará: e depois?


Esta não é a foto geralmente associada ao Pessoal do Ceará (a mais famosa mostra uns 20 jovens, amigos
e artistas ligados ao grupo), mas retrata as vozes que marcaram o primeiro registro deles, em 1973: Rodger de Rogério, Teti e Ednardo. Ednardo emplacou algumas músicas nas rádios comerciais e gravou discos com boa vendagem, pelo menos, em âmbito local. Onde estão Rodger e Teti hoje? Uma reflexão sobre os (des)caminhos da indústria fonográfica.

Queria inaugurar o blog em grande estilo, por isso, tive de esperar um pouco até que pudesse reservar um tempo pra escrever sobre o Pessoal do Ceará. Dedé Evangelista, Augusto Pontes, Amelinha, Petrúcio Maia, Belchior, Cláudio Pereira, Fausto Nilo, Rodger Rogério, Raimundo Fagner, Mércia Pinto, Delberg Ponce de Leon, Teti, Audifax Rios, Ednardo, Ricardo Bezerra e tantos outros são nomes, que além de marcar um período especial na música cearense, ainda repercutem no cenário local e nacional anos depois do lançamento do álbum que, por coincidência ou esperteza da gravadora Continental, os agrupou sob a alcunha pela qual ficariam conhecidos. Pessoal do Ceará inicialmente servia como subtítulo ao LP Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem (1973), trazendo as vozes de Rodger de Rogério, Teti e Ednardo.

O músico e pesquisador Pedro Rogério já fez um bom levantamento sobre as origens desse grupo de artistas em sua tese de mestrado, Pessoal do Ceará: habitus e campo musical na década de 1970. Percorrendo as trajetórias individuais daqueles que participaram da gravação do primeiro LP, ele prova que, apesar de, à primeira vista, parecer obra do acaso um grupo formado não só por músicos, como por cieneastas, artistas plásticos e produtores musicais, tudo está ligado, em uma teia de relações familiares, espaços de sociabilidade e repertórios musicais afins. É um livro ótimo, por isso, não tem por que eu cumprir o mesmo caminho que ele já percorreu. Ao invés disso, fui atrás de satisfazer uma curiosidade que me ficou desde que terminei a leitura: o que aconteceu com alguns dos artistas que participaram deste primeiro momento, mas não alcançaram projeção nacional?

Teti e Rodger de Rogério foram os primeiros em quem pensei. Casados à época do lançamento do disco Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem, os dois gravaram um álbum juntos em 1975, Chão Sagrado. Quatro anos depois, saiu o primeiro disco solo de Teti, Equatorial. E, ao longo dos anos 1980 e 1990, ela participou de discos de amigos, como Petrúcio Maia, Pingo de Fortaleza, Chico Pio e Luciano Cléver. Ainda assim, seu próximo álbum solo, Do Pessoal do Ceará, só foi lançado em 1998, povoado de parcerias que abrangem diversos momentos da música cearense, indo desde composições de Rodger de Rogério e Fagner até uma canção de David Duarte. Em 2006, veio a coletânea Nós Um, que sintetiza sua carreira até então e traz algumas músicas inéditas, inclusive composições de seu filho, Pedro Rogério.

Depois do LP compartilhado com Teti, Rodger só lançou seu primeiro álbum solo em 2004, registrando uma apresentação ao vivo na Feira da Música do ano anterior, em Fortaleza. Entre as 9 faixas, gravadas em uma atmosfera casual, é possível encontrar desde clássicos do Pessoal do Ceará, como "Curta Metragem" (no LP, cantada por Teti), músicas contidas em Chão Sagrado ("O Lago" e "Retrato Marrom"), mas também inéditas, como "Balão de Baia" e "Quando Você me Pergunta". Sim, porque, mesmo consagrado pelos trabalhos junto ao Pessoal do Ceará, Rodger não se contentou em viver de sucessos antigos e está sempre compondo, tanto que suas canções se disseminaram pelos repertórios de vários artistas, como Ney Matogrosso e Fagner.

Tanto Rodger quanto Teti se mantiveram na ativa, apresentando-se na noite, mas sumiram do radar da indústria fonográfica desde aquele registro com o Pessoal do Ceará. Apesar de Teti ter lançado uma quantidade razoável de álbuns, é raro ouvi-la em rádios comerciais, ao contrário do que acontece com Fagner, Belchior ou Ednardo, que também integraram o grupo. Já Rodger chegou a afirmar que demorou tanto para gravar um álbum solo porque só agora recebeu um convite efetivo para fazê-lo.

Talvez a diferença esteja no fato de Fagner, Belchior e Ednardo terem aproveitado o impulso na década de 1970 para fechar contratos com gravadoras nacionais e, então, se dedicado a desbravar de vez o mercado fonográfico no Brasil. Então com dois filhos pequenos, Daniela e Pedro, Rodger e Teti voltaram para Fortaleza e tocaram a vida, misturando a docência e o serviço público à carreira musical. Hoje, têm o respeito de músicos e pessoas do meio, além do carinho de um público cativo, mas, fora desse círculo, são poucos os que conhecem sua obra. É aquela velha história: para viver exclusivamente de música, é preciso antes uma aposta arriscada que nem todos podem fazer. Penso em quantos Rodgers e Tetis não existem por aí: talentos inexplorados porque não tiveram meios de mergulhar nessa briga de foice que é o contato com as gravadoras ainda hoje ou de embarcar em agendas de shows vertiginosas. Cabe a cada um de nós descobri-los, são "ouro em pó que reluz".

Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem não foi o único álbum a levar o subtítulo Pessoal do Ceará:

Aquele Flash foi lançado em 1986, já pegando carona em outro movimento surgido no ínicio da década de 1980 no Ceará: o Massafeira, que unia vários artistas participantes da Massafeira Livre, evento ocorrido em 1979 em Fortaleza. O objetivo era tirar de vez do anonimato essa nova leva de músicos cearenses, misturando suas composições a nomes que despontaram com o Pessoal do Ceará, como Fagner, Fausto Nilo e Belchior. Ao lado deles, surgem Mona Gadelha, Chico Pio, Lúcio Ricardo, entre outros.


Quando este CD foi lançado, em 2002, ganhou o rótulo de "lado B do Grande Encontro", em referência ao projeto empreendido por Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Alceu Valença e Elba Ramalho. Muitos consideram que Amelinha, Belchior e Ednardo poderiam ter inovado mais nas regravações e apresentado mais composições inéditas, mas o fato é que o CD traz músicas relevantes na carreira dos três, como "Terral" e "Pavão Mysteriozo" (Ednardo), ou "Como nossos pais" e "Medo de avião" (Belchior).

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Quando a vida liga o shuffle

Há dias em que sei que preciso de música, preciso de algo mais que os sons da rotina pra rechear os ouvidos, mas não sei exatamente o que quero escutar. Nessas horas, recorro à boa e velha opção "shuffle", presente tanto no mais antigo discman/microsystem quanto no iPod de última geração, e é incrível como, às vezes, esse comando parece encontrar a música certa para cada momento. Chega a dar um nó na cabeça: como não me lembrei dessa música antes? É a beleza do aleatório.

A vida também parece ter uma tecla shuffle. Nem sempre temos um plano claro para ela e, do nada, percebemos que nossa vocação estava ali conosco o tempo inteiro, faltava só aquele evento totalmente ao acaso para nos fazer perceber.

Pelo menos, pra mim, foi assim. O Jornalismo começou a fazer parte da minha vida quase que por osmose: um dia, acordei e vi que não seria feliz em nenhum outro curso. Lá, encontrei a vocação tanto para a prática quanto para a teoria e me apaixonei pela pesquisa acadêmica. Hoje me dou conta de que ouço meu objeto de pesquisa, a Rádio Universitária, desde pequena. E, agora, percebo que há grande probabilidade de me dedicar à crítica musical, além da docência, quando me formar.


Hoje, tudo parece muito claro. Sempre tive uma curiosidade natural para descobrir novos artistas: ouvindo os vários CDs dos meus pais, sintonizando boas emissoras de rádio, baixando mp3 esparsos de bandas mencionadas por amigos, passeando pelo MySpace, e, por fim, mergulhando em discografias inteiras de grupos que me chamam a atenção. Na Comunicação, muitas das grandes entrevistas de que participei foram com músicos: David Duarte, Ney Matogrosso, Daniel Peixoto (as entrevistas com Ney e Daniel serão publicadas em breve na revista Entrevista, do curso de Comunicação Social da UFC), Tuomas Holopainen. Tenho procurado unir a paixão ao ofício e me familizarizar com a mídia especializada, lendo revistas voltadas a esse segmento e contribuindo com sites do gênero, como o Whiplash.

Já faz algum tempo descobri que blogs podem ser espaços bem proveitosos para escrever sobre o que me povoa a mente. Tenho um blog no qual escrevo sobre qualquer tema que me vem à cabeça, mas, por algum motivo, achei melhor que a música ganhasse um espaço só dela. Essa é a história por trás do Música Expressa. Não prometo constância nas atualizações, mas vou tentar sempre imprimir qualidade ao que venha a ser postado. Esse vai ser o lugar onde guardarei tudo que produzir sobre o assunto: notícias, resenhas, reportagens, entrevistas... Vamos ver no que vai dar.

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O que é, o que é?

Música Expressa é uma coleção de divagações sobre um dos meus assuntos favoritos: a música. Aqui, é possível encontrar entrevistas, resenhas, reportagens, crônicas e tudo mais que me der na telha.

Quem sou eu

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Fortaleza, Ceará, Brazil
Faço Comunicação Social - Jornalismo na Universidade Federal do Ceará. Pesquiso rádio, gosto de escrever sobre música e ando descobrindo algumas novas paixões latentes: o jornalismo científico e a Teologia. Por enquanto, tento manter ao menos um blog ativo, pra não esquecer o potencial que a Internet tem.

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