Discussões que repercutem

Sabe aquela conversa boa que deixa a gente com uma coceirinha no cérebro, pensando em ramificações pro que foi dito? Pois foi com essa sensação que saí do Centro Cultural Banco do Nordeste nesses dois primeiros dias de Seminário Nacional Experiências Musicais. Em meio a panoramas nos quais se cruzaram o hip hop, o manguebit, Massafeira, MPB cearense e Chico Buarque, dois tópicos, em particular, cutucaram o público e os debatedores: o papel da Internet no cenário musical e a relação entre os rótulos e a indústria fonográfica.

Todo mundo fala que a Internet é o quente da música hoje, com potencial pra inverter a velha relação artistas-correndo-atrás-de-gravadoras, mas o que acontece quando alguém discorda? Enquanto
Jacques Luis Casagrande, Francisco Gerardo Cavalcante do Nascimento e Francisco José Gomes Damasceno, os integrantes daquela primeira mesa, ressaltavam a facilidade de divulgação e contato com o público que a Web proporcionava, algumas objeções eram levantadas. Nem todo mundo tem acesso à Internet, diziam alguns; no meu tempo, as coisas boas estavam na TV, não num endereço específico, lamentavam outros. Por mais que tenham soado bobos na hora, esses contrapontos me fizeram pensar sobre como a Internet ainda é uma ferramenta inexplorada.

Virando dinossauro

Pertenço a uma geração que sedimentou seus gostos musicais na Internet, trocando arquivos em MP3, caçando vídeo-clips antes de o Youtube aparecer, freqüentando sites de fã-clubes em uma era pré-orkut... Engraçado pensar que a realidade na Web mudou tanto em tão poucos anos. Hoje, é difícil imaginar uma banda que não use esses sites como vitrine, não importa o quão pequena ou recente ela seja (por sinal, as grandes e as antigas também aderiram). Além disso, surgiram sites específicos para divulgação musical, como o MySpace e o Trama Virtual.

Até bem pouco tempo atrás, o caminho para o mainstream pressupunha bajular as gravadoras com CDs-demo paridos em estúdios a preços pouco módicos, pagar um bom jabá pras rádios e TVs e mimar a crítica especializada. Tudo isso ainda existe, mas, com a Internet, pipocam bandas que conseguiram chegar ao público de formas bem mais, digamos, baratas. Penso bastante no pessoal do indie, sendo o exemplo mais famoso a Mallu Magalhães, mas, antes dela, já havia o Cansei de Ser Sexy e o Bonde do Rolê pra contar a história.

Foi mais ou menos isso que argumentei na hora, mas depois fiquei matutando: tudo bem que, em suas origens britânicas, ser indie já pressupunha essa jornada alternativa até o sucesso, ditando as regras para as gravadoras (ou dando a impressão de), com o respaldo de um público cativo de antemão. Mas por que não consigo pensar em bons exemplos de uso da Internet em outros gêneros musicais, como a MPB? Parece que o ideal ainda é tocar em trilha de novela, apesar de haver outras vias bem mais dignas rumo ao sucesso... Talvez por isso os artistas da nova MPB que tocam nas rádios soem tão iguais. Ou talvez seja só preconceito da minha parte. Mas, sério, alguém conhece algum artista da MPB que estourou primeiro na Internet?

Rótulos

Um ponto de convergência entre as falas de Wagner Castro, Lia Mirela Moita e Mary Pimentel: o uso de rótulos para vender artistas, quer eles abracem as etiquetas ou não. Enquanto Lia falava de Chico Buarque e a relutância demonstrada por ele em aceitar a bandeira de músico de protesto, Wagner Castro lembrou a onipresença do subtítulo "Pessoal do Ceará", que acompanha toda uma geração de músicos e compositores cearenses e, na avaliação do pesquisador, parece subentender que, depois de Rodger, Fagner, Belchior e companhia, "não apareceu mais ninguém".

Como já contei por aqui, o pessoal do Ceará virou Pessoal graças à Continental, que lançou o LP Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem com ese subtítulo em 1973. Como o disco foi bem recebido e fez história, continuou sendo um bom negócio incluir mais e mais artistas, de gerações e movimentos distintos, na mesma leva.

Com Chico, o mistério persiste: como a censura dificultava a venda de discos do cantor, não dá pra ter certeza que foi a indústria fonográfica que o rotulou como um músico de protesto. Mas quem teria sido o autor da idéia, então? Mergulhando no contexto da época, surgem outras possibilidades: teria sido o público? Alguns setores da esquerda à época? A sociedade, esperando impaciente pela redemocratização? O que se sabe é que Chico se mostrou descontente com o rótulo diversas vezes.

Inventar vertentes musicais e movimentos está na moda até hoje, há bandas que o fazem por conta própria, na tentativa de se sobressair da multidão. Há outras que buscam se destacar justamente repelindo os moldes. Qual dos dois é o caminho mais sensato, se é que ele existe?

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Faço Comunicação Social - Jornalismo na Universidade Federal do Ceará. Pesquiso rádio, gosto de escrever sobre música e ando descobrindo algumas novas paixões latentes: o jornalismo científico e a Teologia. Por enquanto, tento manter ao menos um blog ativo, pra não esquecer o potencial que a Internet tem.

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