Pessoal do Ceará: e depois?


Esta não é a foto geralmente associada ao Pessoal do Ceará (a mais famosa mostra uns 20 jovens, amigos
e artistas ligados ao grupo), mas retrata as vozes que marcaram o primeiro registro deles, em 1973: Rodger de Rogério, Teti e Ednardo. Ednardo emplacou algumas músicas nas rádios comerciais e gravou discos com boa vendagem, pelo menos, em âmbito local. Onde estão Rodger e Teti hoje? Uma reflexão sobre os (des)caminhos da indústria fonográfica.

Queria inaugurar o blog em grande estilo, por isso, tive de esperar um pouco até que pudesse reservar um tempo pra escrever sobre o Pessoal do Ceará. Dedé Evangelista, Augusto Pontes, Amelinha, Petrúcio Maia, Belchior, Cláudio Pereira, Fausto Nilo, Rodger Rogério, Raimundo Fagner, Mércia Pinto, Delberg Ponce de Leon, Teti, Audifax Rios, Ednardo, Ricardo Bezerra e tantos outros são nomes, que além de marcar um período especial na música cearense, ainda repercutem no cenário local e nacional anos depois do lançamento do álbum que, por coincidência ou esperteza da gravadora Continental, os agrupou sob a alcunha pela qual ficariam conhecidos. Pessoal do Ceará inicialmente servia como subtítulo ao LP Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem (1973), trazendo as vozes de Rodger de Rogério, Teti e Ednardo.

O músico e pesquisador Pedro Rogério já fez um bom levantamento sobre as origens desse grupo de artistas em sua tese de mestrado, Pessoal do Ceará: habitus e campo musical na década de 1970. Percorrendo as trajetórias individuais daqueles que participaram da gravação do primeiro LP, ele prova que, apesar de, à primeira vista, parecer obra do acaso um grupo formado não só por músicos, como por cieneastas, artistas plásticos e produtores musicais, tudo está ligado, em uma teia de relações familiares, espaços de sociabilidade e repertórios musicais afins. É um livro ótimo, por isso, não tem por que eu cumprir o mesmo caminho que ele já percorreu. Ao invés disso, fui atrás de satisfazer uma curiosidade que me ficou desde que terminei a leitura: o que aconteceu com alguns dos artistas que participaram deste primeiro momento, mas não alcançaram projeção nacional?

Teti e Rodger de Rogério foram os primeiros em quem pensei. Casados à época do lançamento do disco Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem, os dois gravaram um álbum juntos em 1975, Chão Sagrado. Quatro anos depois, saiu o primeiro disco solo de Teti, Equatorial. E, ao longo dos anos 1980 e 1990, ela participou de discos de amigos, como Petrúcio Maia, Pingo de Fortaleza, Chico Pio e Luciano Cléver. Ainda assim, seu próximo álbum solo, Do Pessoal do Ceará, só foi lançado em 1998, povoado de parcerias que abrangem diversos momentos da música cearense, indo desde composições de Rodger de Rogério e Fagner até uma canção de David Duarte. Em 2006, veio a coletânea Nós Um, que sintetiza sua carreira até então e traz algumas músicas inéditas, inclusive composições de seu filho, Pedro Rogério.

Depois do LP compartilhado com Teti, Rodger só lançou seu primeiro álbum solo em 2004, registrando uma apresentação ao vivo na Feira da Música do ano anterior, em Fortaleza. Entre as 9 faixas, gravadas em uma atmosfera casual, é possível encontrar desde clássicos do Pessoal do Ceará, como "Curta Metragem" (no LP, cantada por Teti), músicas contidas em Chão Sagrado ("O Lago" e "Retrato Marrom"), mas também inéditas, como "Balão de Baia" e "Quando Você me Pergunta". Sim, porque, mesmo consagrado pelos trabalhos junto ao Pessoal do Ceará, Rodger não se contentou em viver de sucessos antigos e está sempre compondo, tanto que suas canções se disseminaram pelos repertórios de vários artistas, como Ney Matogrosso e Fagner.

Tanto Rodger quanto Teti se mantiveram na ativa, apresentando-se na noite, mas sumiram do radar da indústria fonográfica desde aquele registro com o Pessoal do Ceará. Apesar de Teti ter lançado uma quantidade razoável de álbuns, é raro ouvi-la em rádios comerciais, ao contrário do que acontece com Fagner, Belchior ou Ednardo, que também integraram o grupo. Já Rodger chegou a afirmar que demorou tanto para gravar um álbum solo porque só agora recebeu um convite efetivo para fazê-lo.

Talvez a diferença esteja no fato de Fagner, Belchior e Ednardo terem aproveitado o impulso na década de 1970 para fechar contratos com gravadoras nacionais e, então, se dedicado a desbravar de vez o mercado fonográfico no Brasil. Então com dois filhos pequenos, Daniela e Pedro, Rodger e Teti voltaram para Fortaleza e tocaram a vida, misturando a docência e o serviço público à carreira musical. Hoje, têm o respeito de músicos e pessoas do meio, além do carinho de um público cativo, mas, fora desse círculo, são poucos os que conhecem sua obra. É aquela velha história: para viver exclusivamente de música, é preciso antes uma aposta arriscada que nem todos podem fazer. Penso em quantos Rodgers e Tetis não existem por aí: talentos inexplorados porque não tiveram meios de mergulhar nessa briga de foice que é o contato com as gravadoras ainda hoje ou de embarcar em agendas de shows vertiginosas. Cabe a cada um de nós descobri-los, são "ouro em pó que reluz".

Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem não foi o único álbum a levar o subtítulo Pessoal do Ceará:

Aquele Flash foi lançado em 1986, já pegando carona em outro movimento surgido no ínicio da década de 1980 no Ceará: o Massafeira, que unia vários artistas participantes da Massafeira Livre, evento ocorrido em 1979 em Fortaleza. O objetivo era tirar de vez do anonimato essa nova leva de músicos cearenses, misturando suas composições a nomes que despontaram com o Pessoal do Ceará, como Fagner, Fausto Nilo e Belchior. Ao lado deles, surgem Mona Gadelha, Chico Pio, Lúcio Ricardo, entre outros.


Quando este CD foi lançado, em 2002, ganhou o rótulo de "lado B do Grande Encontro", em referência ao projeto empreendido por Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Alceu Valença e Elba Ramalho. Muitos consideram que Amelinha, Belchior e Ednardo poderiam ter inovado mais nas regravações e apresentado mais composições inéditas, mas o fato é que o CD traz músicas relevantes na carreira dos três, como "Terral" e "Pavão Mysteriozo" (Ednardo), ou "Como nossos pais" e "Medo de avião" (Belchior).

4 comentários:

bruno reis | 8 de dezembro de 2008 18:30

Realmente nem todo mundo pode se jogar e ir para São Paulo tentar reconhecimento, mas também tem muito de sorte, e de alguma forma, talento. Afinal não vai ser todo mundo que vai estourar nacionalmente, não porque seja melhor ou pior, mas por se encaixar melhor por alguma razão naquilo que o público/mercado quer naquele momento.

Gosto muito da Amelinha, os outros conheço muito pouco, além de Fagner, Belchior e Ednardo. A sorte é que hoje existem ferramentas que, se não acabam com a necessidade de ir para um grande centro, atenua essa condição, dando visibilidade, que é a internet. Talvez se eles fossem dessa geração teriam mais oportunidades, até porque acho que hoje em dia um contrato com gravadora não é único caminho para entrar em uma gravadora. Daqui a um tempo é capaz desse caminho sequer existir mais.

Ah, e muito boa a iniciativa do blog, Débs. Irei acompanhar :)

Débora Medeiros | 9 de dezembro de 2008 19:53

Lôro, gostei do link com a atualidade :) Realmente, a Internet muda bastante esse quadro, até porque, se não faz todos estourarem instantaneamente, ajuda os artistas a se divulgarem melhor em certos nichos, cativar fãs e mostrar o próprio trabalho pra um público maior que aquele que vai às apresentações, o que já impulsiona bastante uma carreira.

Hoje, no seminário Experiência Musicais, a gente até enveredou um pouco num debate sobre isso. Tinha um cara que insistia em dizer que a Internet não mudava em nada a situação e que os mass media eram aparelhos malévolos pausterizadores de gostos musicais, como se, hoje, as pessoas não tivessem muito mais oportunidade de escolher o que ouvir e as bandas, muito mais vias de chegar ao público que o mainstream...

Agora, no caso específico do Rodger e da Teti, não vejo muitos artistas que tocam MPB aqui fazendo uso como poderiam da rede, sabe... A MPB em geral, pra falar a verdade, ainda me parece ignorar um pouco o potencial da Internet, os artistas meio que focam mais esforços em fazer parte de alguma trilha de novela pra estourar :P Brincadeiras à parte, é realmente curioso. Tu também percebe isso ou eu é impressão minha? Vou pesquisar melhor pra ver...

josé leite netto | 9 de dezembro de 2008 19:53

Realmente o pessoal do ceará teve um bom destaque no senário nascional. Mas hoje em dia acredito que o artista não tem mais a necessidade do êxodo obrigatório do passado. A moçada tem mesmo é que cantar o seu quintal com fama ou sem fama, mas com reconhecimento pelo trabalho, o que acredito ser mais importante que a fama.

Daniel Fonsêca | 12 de abril de 2009 22:43

O que dizer de David Duarte, Isaac Cândido e Kátia Freitas?

O que é, o que é?

Música Expressa é uma coleção de divagações sobre um dos meus assuntos favoritos: a música. Aqui, é possível encontrar entrevistas, resenhas, reportagens, crônicas e tudo mais que me der na telha.

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Faço Comunicação Social - Jornalismo na Universidade Federal do Ceará. Pesquiso rádio, gosto de escrever sobre música e ando descobrindo algumas novas paixões latentes: o jornalismo científico e a Teologia. Por enquanto, tento manter ao menos um blog ativo, pra não esquecer o potencial que a Internet tem.

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