Odes ao domingo

Se pararmos pra pensar, domingo é o único dia em que temos tempo pra fazer exatamente isso: parar pra pensar. Talvez por isso ninguém se sinta completamente bem num domingo. Pra maioria das pessoas, não há trabalho, aulas, obrigações; domingo é só a véspera de tudo isso. As ruas estão vazias e sair de casa é, por si só, um movimento que parece desafiar a Lei da Gravidade.

Domingo é o dia livre por excelência, enfim. E ninguém sabe o que fazer com essa liberdade. Dá remorso simplesmente existir. E esse remorso lembra outros, que enterramos sob os afazeres do dia-a-dia. A vida inteira pode ser revisada numa única tarde de domingo: as oportunidades perdidas, os planos que ninguém sabe se vão dar certo, os afetos, os problemas.

Passei a gostar mais dos domingos quando aceitei seu caráter único. Coincidência ou não, muitas das minhas músicas favoritas falam desse dia, ou melhor, da multiplicidade de dias que podem caber num domingo, dependendo das combinações de sentimentos e circunstâncias.

Sunday Morning Comin’ Down – Johnny Cash

A descrição da vida se desenrolando preguiçosamente na vizinhança – missa, crianças brincando na rua, o cheiro de comida caseira – em contraste com o caos inerente a cada gesto do narrador é a tradução dos domingos mais simples, desesperadores e belos que há, quando a liberdade do dia se manifesta em uma sensibilidade que nos faz perceber o quanto a vida é bonita e irreversível até nas coisas mais bobas. “’Cause there’s something in a Sunday/That makes a body feel alone”

Domingo no Parque – Gilberto Gil e Os Mutantes

Eu adorava ouvir essa música quando era criança. Até hoje tenho um fraco por letras que contam histórias, e as metáforas do Gil nessa canção são lindas, caleidoscópicas. Eu ficava horas imaginando o José, o João e a Juliana... Só muito mais tarde fui perceber que essa música fala de um domingo-catástrofe, de uma tragédia que provavelmente não teria acontecido numa segunda-feira ou num sábado festivo. No redemoinho de sentimentos conflitantes que o domingo traz, o pobre José achou que nunca teria a Juliana, só porque ela resolveu curtir a roda-gigante com o João.

Tell me on a Sunday – Michael Crawford

Uma das músicas mais singelas sobre o fim (anunciado) de um relacionamento. É um pedido final, que transparece o amor que ainda não acabou. Na verdade, Tell me on a Sunday é o nome de um dos musicais menos conhecidos do Andrew Lloyd Webber e trata não de um, mas de vários rompimentos. É a história de uma moça inglesa idealista que chega a Nova York e vive uma série de relacionamentos, que sempre terminam quando ela percebe que está traindo a si mesma e se tornando justamente aquilo que prometera não ser ao ir pros Estados Unidos. Terminar um namoro no domingo, quando revemos o que somos e o que deixamos de ser, faz todo o sentido nesse contexto.  

Domingo – Titãs

Só de falar no Programa Sílvio Santos, os Titãs abrasileiram perfeitamente o marasmo do domingo e despertam memórias em qualquer um que já desbravou a selva televisiva desse dia, seja por falta de assunto com os parentes que vieram pro almoço, por tédio ou – será possível? – gosto. O mal-estar em não saber o que fazer com o dia é tanto, que até a segunda-feira é preferível.

Sunday Bloody Sunday – U2

O clássico do U2 relembra o dia 30 de janeiro de 1972, quando 14 manifestantes foram mortos pelo Exército Britânico em Derry, Irlanda do Norte. O episódio, marcado pela truculência contra uma passeata pacífica, fortaleceu as fileiras do Exército Republicano Irlandês (IRA), desembocando em outras explosões de violência ao longo das décadas seguintes. É um marco que continua dolorosamente atual e ganha força, quando soa em um domingo distante quase quarenta anos daquele dia fatídico. Serve como um lembrete de tudo de importante que está acontecendo, enquanto perdemos tempo agigantando problemas insignificantes.

Wort zum Sonntag – Die Toten Hosen

Batizado com uma alusão a programas religiosos da TV alemã (em tradução livre, Wort zum Sonntag pode ser lido como Palavra Dominical), essa música tem mesmo muito de pregação. Ela virou um hino do punk rock, com uma homenagem ao guitarrista Johnny Thunders, do New York Dolls, e fala de como o passado se faz presente, mesmo com o correr do tempo. Um tapa sempre bem-vindo na cara do saudosismo vazio, especialmente no domingo.

Essas são apenas algumas escolhas bem pessoais, tenho consciência que deixei vários clássicos de fora. O fato é que eu também gostaria de ouvir as músicas que significam domingo pra você que me lê :)

Wort Zum Sonntag by Die Toten Hosen  
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10-Wort zum Sonntag - hipis@freenet.de.mp3 (6066 KB)

Domingo - Titãs  
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Domingo No Parque - Gilberto G  
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Sunday Morning Coming Down by Johnny Cash  
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Sunday Bloody Sunday - U2 (Wit  
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Balões de Diálogo com a Banda Desenhada

Surgida em 2009, a Banda Desenhada também vem sendo conhecida como “a banda nova da Alinne e do Igor”. Isso porque a carreira musical da jornalista Alinne Rodrigues e do publicitário Igor Miná já vem de bem antes, com a Telerama,  banda fundada em 2005 que se firmou como um nome da cena independente cearense ao longo dos anos.

Enquanto arrumam as malas para tocar pela segunda vez no festival americano South by Southwest (SXSW), o casal, que está noivo desde o ano passado, encontrou um tempinho para fazer a estreia cearense da Banda Desenhada nesta quarta (3), às 20h, no Teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, com entrada gratuita.

Em entrevista por e-mail, Alinne antecipa um pouco do que o público pode esperar do show, além de revisar a trajetória da Telerama e contar os planos para 2010.


“Banda desenhada” é o como os portugueses chamam as histórias em quadrinhos. De que forma elementos da cultura pop/geek, como as HQs, influenciam a banda?
 
Alinne Rodrigues: Na leveza ao tratar de qualquer assunto. A canção pop de três minutos é como uma tirinha diária: ainda que breve e repetitiva, de vez em quando atinge você em cheio (essa é do Igor, redator publicitário que condensa ideias em frases geniais).


Antes de começar a Banda Desenhada, você e o Igor fundaram a Telerama, em 2005. A banda viajou pelo Brasil e pros EUA, lançou EPs, participou de compilações, concorreu a prêmios... Por que não continuar como Telerama, que já tinha toda essa trajetória? 
 
Alinne: Era informação demais, tanto boa como ruim. Telerama foi a primeira banda que a gente teve na vida, então, quando a gente começou, as composições eram mais fraquinhas, e a gente tinha muitas limitações técnicas, muitas mesmo, e isso é natural. Fomos crescendo musicalmente, artisticamente, tecnicamente, pessoalmente, conseguimos definir um som que a gente gostava de fazer, mas a imagem da bandinha iniciante com uma garota desafinada tentando cantar ficou. Quem gostava da banda gostava pelas músicas, pelo que elas queriam dizer, não porque iam ouvir performances perfeitas. Mas ter gente que goste das suas composições não é suficiente para se trilhar um caminho mais profissional no Brasil. Aqui o pessoal aplaude quem executa com perfeição, não quem tem talento. Principalmente em Fortaleza, aplaudem-se os músicos, não os artistas. Os que executam, não os que criam. Daí começar um projeto novo, com a cara que a gente já tinha no final da Telerama, mas com a cabeça que a gente tem hoje aos (quase) 25 e 26 anos. 


De que forma as duas bandas se relacionam? Quais são os pontos em comum e quais as diferenças entre elas?


Alinne: A grande diferença é a formação: somos dois em vez de quatro. As músicas vão no rumo das que lançamos no finalzinho da Telerama, como Sem Ter Amor e Arsenal. Somos a mesma banda, mas diferente. Uma continuação natural do que fizemos da outra vez, mas mais legal ainda (risos)! Ah! Como não temos ainda um repertório imenso de Banda Desenhada, incorporamos umas músicas da Telerama ao show. Vai ser sucesso!


No dia 17 deste mês, vocês tocam pela segunda vez no festival South by Southwest (SXSW), que acontece em Austin, no Texas. Vocês acham que essa experiência pode trazer uma eventual inserção da banda na cena americana?


Alinne: Meio que sem saber, a gente já estava entrando na cena americana como Telerama. Em setembro do ano passado, participamos de uma coletânea nacional em homenagem ao Guided by Voices com uma versão de Game of Pricks. A coletânea pouco repercutiu no Brasil – aliás, onde repercutiu, todo mundo só citava as mesmas músicas, tocadas pelas bandas mais conhecidas do circuito Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes, responsável por festivais como Porão do Rock, Goiânia Noise e Grito Rock) –, mas circulou bem nos Estados Unidos. Não só a coletânea foi comentada em diversos blogs como a nossa versão foi apontada como destaque. O melhor foi a maneira como soubemos disso: um fã de Nova York nos contou. E aí ele já estava ouvindo a Banda Desenhada e perguntando quando a gente iria tocar em Nova York. Quem sabe não rola agora nessa ida?


Quais são os planos pra quando vocês voltarem do festival? Já tem previsão para o lançamento do primeiro EP da Banda Desenhada?
 
Alinne: O primeiro EP sai antes da viagem, até porque a gente quer levar material pra lá. O título é Banda Sonora – Igor, que adora trocadilhos, vai fazer piada com isso até não poder mais (risos) – e deve sair com umas quatro músicas inéditas. Os planos pra depois do festival se resumem a um só: casar!


Você e o Igor são os dois únicos integrantes da Banda Desenhada. Mas e nas apresentações ao vivo, sobe mais gente ao palco junto com vocês, pra dar conta de todos os instrumentos?


Alinne: A gente quer muito sempre ter alguém a mais no palco, mas é só mania de quem já teve banda completa. Vamos tocar só os dois no Dragão e muito provavelmente também no SXSW. Pra isso vamos usar samples de instrumentos. A bateria não é programada, montada em computador. É gravada pelo Igor, e a gente dá o play na hora do show. Assim também rola com algumas guitarras, baixo e sintetizadores. Eu continuo só na pandeirola. =(


Mais canções e informações no MySpace e no perfil da banda na Trama Virtual. No twitter, siga @banda_desenhada.

Ouça o primeiro single da Banda Desenhada, Enquanto o Mundo Sai de Férias:

Enquanto O Mundo Sai De Férias by Banda Desenhada  
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Banda_Desenhada_-_Enquanto_o_Mundo_Sai_de_Férias.mp3(5133 KB)

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O que é, o que é?

Música Expressa é uma coleção de divagações sobre um dos meus assuntos favoritos: a música. Aqui, é possível encontrar entrevistas, resenhas, reportagens, crônicas e tudo mais que me der na telha.

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Faço Comunicação Social - Jornalismo na Universidade Federal do Ceará. Pesquiso rádio, gosto de escrever sobre música e ando descobrindo algumas novas paixões latentes: o jornalismo científico e a Teologia. Por enquanto, tento manter ao menos um blog ativo, pra não esquecer o potencial que a Internet tem.

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